Miopia da imprensa brasileira

maio 4, 2009

O New York Times publicou uma reportagem (“Despite Recession, Fearful Brazilians Keep Armored Car Sales Booming“) sobre o aumento da venda de carros blindados no Brasil após a crise.

Discordo do advérbio usado na manchete (despite). Neste caso, faria mais sentido dizer: “devido a” do que “apesar de”, a meu ver. Isto porque podemos esperar um aumento do desemprego devido à redução na atividade econômica. E, devido ao aumento no desemprego, infelizmente podemos esperar algum impacto na criminalidade.

Como as pessoas já esperam que isso irá acontecer, compram mais carros blindados por precaução e segurança. Simples.

Ao menos o NYT dedicou uma frase para explicar isto:

“But as the economy slides and the country sheds jobs, there is a palpable dread that street crime will get worse as well, economists here say.”

Coisa que não fizeram a BBC Brasil e a Folha de São Paulo, ao citarem a reportagem do periódico yankee. Para eles, ficou parecendo que este é um fenômeno estranho e contrário à lógica de que recessão provoca queda nas vendas, invarialvemente.

“De acordo com a Abrablin, os números continuam a crescer em 2009, apesar de um primeiro trimestre com maus resultados econômicos.”

Ignoram a existência de setores anti-cíclicos, que respondem de forma inversa ao desemprenho da economia.

E ainda acham que os agentes econômicos só enxergam um palmo à frente:

“O NYT afirma que, apesar de os índices de assassinatos e roubo de veículos terem caído em São Paulo, os paulistanos apontam a falta de segurança como principal razão para comprar um carro blindado.”

Parece que a imprensa brasileira também está precisando óculos para enxergar as expectativas e o comportamento das pessoas!

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Recessão técnica? Mas se o denominador cai…

março 23, 2009

… a razão fica maior!

Muitos estão dizendo que, depois da queda do PIB acima das expectativas no último trimestre de 2008, o Brasil corre mais riscos de entrar numa “recessão técnica”, caracterizada por dois trimestres de quedas consecutivas no produto.

O PIB do 1º trimestre de 2009 será comparado com o 4º de 2008, e a variação seria:

{ [ ( PIB do 1ºT de 2009 ) / ( PIB 4ºT 2008 ) ] – 1 } * 100 %

Ok. Mas se o denominador (o PIB do 4ºT de 2008) foi menor do que o esperado, a chance de que haja uma variação negativa no PIB ficou menor!

O Brasil corre menos risco de entrar numa “recessão técnica”.

Mas o que isso significa na prática? Pra mim, nada demais. Apenas que alguns jornalistas aproveitam qualquer coisa pra fazer terrorismo econômico.


Contraste

fevereiro 27, 2009

A economia americana registrou uma contração de 6,2% no quarto trimestre (de 2008)

A economia da Índia cresceu 5,3% no quarto trimestre do ano passado” (isso, após ter crescido 7,3% no terceiro trimestre)

Esses indianos são mesmo fora de série! Pra mim, a única explicação é que esse pessoal está a mil anos-luz de distância do seu estado estacionário de crescimento econômico…

Mas aqui, cadê aquele pessoal que falava que a China e Índia iam salvar o mundo no caso de uma recessão nos EUA!?

Todo mundo sumiu. Eu já perguntei aqui antes, mas ninguém aparece. Ah sim, estão ocupados contando outras historinhas agora…


As crenças e ilusões viajam os sete mares…

fevereiro 5, 2009

Achei muito interessante a fala de um indiano sobre a crise, que foi transmitida na reportagem da BBC: “Depoimentos revelam efeitos da crise pelo mundo”

“‘Os negócios estão definitivamente em queda, as coisas não são o que eram dois meses atrás’, disse Ray. ‘Tivemos de reduzir o número de funcionários. Muitas pessoas achavam que a Índia não ia ser afetada pelo que está acontecendo na América e em outros lugares, mas agora percebemos que não estamos isolados do mundo.'”

Porque eu achei interessante: há poucos meses, o mesmo conto de fadas indiano – de que os EUA não valiam mais nada e a China ia sustentar o mundo no caso de uma recessão – era recitado do Oiapoque ao Chuí.

Você pode alegar que, agora, é fácil dizer que isso era um conto de fadas, mas a maioria dos que me conhecem pessoalmente sabe que eu sempre combati este pensamento.

Depois de um tempo, de tanto as pessoas dizerem que eu não sabia de nada e ninguém me ouvir, cansei. Sempre que bradavam: “que nada, se os EUA entrarem em recessão ninguém vai nem sentir; a China tá bombando”, eu ficava calado.

Não precisava estudar economia pra saber que isso era pura ilusão.

Crer que ninguém ia sentir uma recessão em ~1/4 do PIB mundial é muita presunção. Acreditar que a China ia continuar ‘bombando’ mesmo se o seu maior consumidor parasse de comprar, era contrariar a lógica. Isso para não entrar mais a fundo nas explicações da ciência econômica…

(veja as crenças aí de novo, passando uma rasteira na ignorância das mentes humanas)

Agora, essas mesmas pessoas inventaram um novo conto. Só que não é mais de fada, é uma bruxa horrenda, desdentada, muito má e, pior, imortal! A crença apenas trocou de roupa. A imprensa recita e os leitores continuam vestindo a fantasia de papagaios (e ainda se dizem, como se diziam sobre o conto da China: “atualizados, informados”).

Aqui eu posso falar, pois lê quem quer. Além daqui, esforçarei por continuar calado; aprendi a lição.

Aí está algo que esta crise não mudou um centavo sequer: o assombroso estado de ignorância das mentes humanas e uma tendência milenar muito forte e generalizada a crer, ambos em todos os aspectos da vida, não só no econômico.

Alguém desconfia dos prejuízos que a humanidade já sofreu por conta disso!? Não há trilhão nem zilhão de dólares que possa medir… Até quando vamos ficar tapando o sol com a peneira dos pacotões econômicos? Na minha opinião, esta crise vai além dos domínios econômico-financeiros. Ela é cultural. É consequência de uma cultura decadente, que tem por base, entre outros aspectos, a crença.

A boa notícia, que me dá esperança: o ser humano possui livre-arbítrio para mudar esta situação; basta fazer uso dele, basta pensar, ao invés de se reduzir e se anular em credulidades impostas por alguns.