A economia como ciência humana

maio 6, 2009

É interessantíssimo observar como os pensamentos humanos têm uma propensão a passar de um extremo a outro com assombrosa rapidez e facilidade: “BC: parte do mercado já crê em recuperação dos EUA“.

Há poucas semanas o mundo havia acabado…

Mais interessante é observar como estas peculiaridades da mente humana influenciam a matéria de nosso estudo: a economia!


As crenças e ilusões viajam os sete mares…

fevereiro 5, 2009

Achei muito interessante a fala de um indiano sobre a crise, que foi transmitida na reportagem da BBC: “Depoimentos revelam efeitos da crise pelo mundo”

“‘Os negócios estão definitivamente em queda, as coisas não são o que eram dois meses atrás’, disse Ray. ‘Tivemos de reduzir o número de funcionários. Muitas pessoas achavam que a Índia não ia ser afetada pelo que está acontecendo na América e em outros lugares, mas agora percebemos que não estamos isolados do mundo.'”

Porque eu achei interessante: há poucos meses, o mesmo conto de fadas indiano – de que os EUA não valiam mais nada e a China ia sustentar o mundo no caso de uma recessão – era recitado do Oiapoque ao Chuí.

Você pode alegar que, agora, é fácil dizer que isso era um conto de fadas, mas a maioria dos que me conhecem pessoalmente sabe que eu sempre combati este pensamento.

Depois de um tempo, de tanto as pessoas dizerem que eu não sabia de nada e ninguém me ouvir, cansei. Sempre que bradavam: “que nada, se os EUA entrarem em recessão ninguém vai nem sentir; a China tá bombando”, eu ficava calado.

Não precisava estudar economia pra saber que isso era pura ilusão.

Crer que ninguém ia sentir uma recessão em ~1/4 do PIB mundial é muita presunção. Acreditar que a China ia continuar ‘bombando’ mesmo se o seu maior consumidor parasse de comprar, era contrariar a lógica. Isso para não entrar mais a fundo nas explicações da ciência econômica…

(veja as crenças aí de novo, passando uma rasteira na ignorância das mentes humanas)

Agora, essas mesmas pessoas inventaram um novo conto. Só que não é mais de fada, é uma bruxa horrenda, desdentada, muito má e, pior, imortal! A crença apenas trocou de roupa. A imprensa recita e os leitores continuam vestindo a fantasia de papagaios (e ainda se dizem, como se diziam sobre o conto da China: “atualizados, informados”).

Aqui eu posso falar, pois lê quem quer. Além daqui, esforçarei por continuar calado; aprendi a lição.

Aí está algo que esta crise não mudou um centavo sequer: o assombroso estado de ignorância das mentes humanas e uma tendência milenar muito forte e generalizada a crer, ambos em todos os aspectos da vida, não só no econômico.

Alguém desconfia dos prejuízos que a humanidade já sofreu por conta disso!? Não há trilhão nem zilhão de dólares que possa medir… Até quando vamos ficar tapando o sol com a peneira dos pacotões econômicos? Na minha opinião, esta crise vai além dos domínios econômico-financeiros. Ela é cultural. É consequência de uma cultura decadente, que tem por base, entre outros aspectos, a crença.

A boa notícia, que me dá esperança: o ser humano possui livre-arbítrio para mudar esta situação; basta fazer uso dele, basta pensar, ao invés de se reduzir e se anular em credulidades impostas por alguns.


História econômica viva

janeiro 30, 2009

Não sei se todos que se interessam por História Econômica Geral – como eu, que comecei a me interessar há poucos meses – estão acompanhando os recentes acontecimentos em economia e política mundial que se desdobram por trás do auê crisento financeiro…

A China está saindo das suas fronteiras e aumentando sua influência sobre diversos países do leste asiático. Recentemente, a moeda chinesa começou a ser adotada no comércio externo com alguns países, ao invés da tradicional troca em dólares. A Índia também dá alguns sinais de sair da toca, com conglomerados empresariais monstruosos. O Brasil está anunciando planos de investimentos – e sendo bem recebido – em vários países da América Latina e da África – com participação direta de diversos conglomerados privados nacionais. (veja uma das dezenas de matérias que têm saído na imprensa sobre o assunto)

Pra quem estudou ao menos um mínimo – como eu – das fases que o capitalismo global já passou, consegue projetar o que esses movimentos significam.

Isso é História Econômica Geral viva. Estamos vivendo parte de algo que será estudado nas próximas décadas nas cadeiras de história econômica em todo o mundo. E agora somos protagonistas.

A imprensa está fazendo um trabalho até legal, acompanhando as comitivas brasileiras, mas acho que poderiam dar mais ênfase para essas matérias. A meu ver, são muito, mas muito mais relevantes para o Brasil do que, como eu disse, o auê crisento financeiro…

E aí?.. Vamos continuar no pescoço da galinha ou levantaremos a mira?


O que diz a imprensa estrangeira sobre a situação do Brasil com a “crise”

janeiro 8, 2009

Vale a pena a leitura da matéria do britânico Financial Times:

“Brazil is well-placed for the economic storm”

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Para quem prefere o bom português, encontrei esta opção (mas não me responsabilizo, pois não conferi a qualidade da tradução):

“Brasil está bem colocado para enfrentar crise, diz FT”

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Para quem anda um tanto impaciente para realizar breves leituras, fiz um resumo em tópicos da matéria:

  • Em 2008, o Brasil era modelo de “descolamento” das economias desenvolvidas, com um sistema bancário livre de contaminação dos “subprimes
  • 2008 foi destaque para as commodities brasileiras
  • Também se destacou a grande importância do consumo doméstico e da expansão conservadora do crédito para a manutenção de um crescimento sólido
  • No início de 2009, o único fator de quebra do descolamento: as instituições bancárias contraíram a concessão de empréstimos
  • Os investimentos em infra-estrutura dos países em recessão deve colaborar para conter a baixa das commodities
  • A economia brasileira está muito mais bem preparada para enfrentar a crise do que no passado
  • Anos 1990: economia muito fechada, balanço de pagamentos muito fraco, hiperinflação, empresas e indústrias-chave eram estatais
  • Anos 2000: regime de metas de inflação, lei de responsabilidade fiscal
  • As leis bancárias brasileiras tornaram nossos bancos os mais bem capitalizados do mundo
  • “A capitalização do Morgan Stanley é metade do banco Itaú, por exemplo. Isso é assustador para nós (estrangeiros).”
  • Não sabemos quando a confiança dos mercados voltará. O comércio mundial será afetado. Investidores serão afetados. A percepção de risco mudou. Contudo, quando a poeira baixar, o Brasil estará bem posicionado

Pior que 1929!?

janeiro 7, 2009

Muito alarde está sendo feito na imprensa brasileira sobre a gravidade da “crise” que vivemos hoje. Estão tentando vender (literalmente) a idéia de que a crise que vivemos é tão grave quanto à de 1929.

Não vou discutir se o PIB americano ou brasileiro vão encolher nos próximos anos à mesma proporção daquela época, nem se o desemprego subirá a índices tão elevados quando na década de 1930. Não vou discutir nada disso.

Só vou trazer duas manchetes que saíram na mídia dois dias atrás e que passaram totalmente despercebidas. Não foi feito nenhum alarde sobre elas. O governo não mexeu uma palha.

Exportações de café do Brasil pressionam futuros em NY

“Os futuros do café arábica caíam de forma acentuada nesta segunda-feira (…)”

Café fecha 2008 com baixa rentabilidade

“(…) os patamares ficaram abaixo do mínimo necessário para cobrir os gastos com a cultura.”

E agora gostaria de lembrar que, na década de 1930, manchetes parecidas eram capa de todos os jornais da época e o problema estaria logo pela manhã na mesa do Presidente da República. Era o maior problema da economia brasileira e o pesadelo dos formadores de políticas econômicas!

Se o setor cafeeiro quebrasse, o Brasil inteiro quebrava junto! E olha que, poucos anos depois, saímos muito fortalecidos da quebra da Bolsa de NY.

Já o Brasil do século XXI é beeem diferente!… Não vou ficar repetindo aqui o porquê, pois já estamos carecas de ouvir.

Agora, alguém me diga, com um mínimo de sensatez: tem como retrocedermos 80 anos e esta crise ser tão grave para nossa economia quanto 1929!?!?

Na minha opinião, muita coisa indica que quem estiver apostando contra o Brasil, terá apostado muito mal! Portanto, muito cuidado com manchetes “salve-se quem puder”…


O que é bom também deve ser destacado

dezembro 27, 2008

Não é o propósito deste blog, mas o que é útil e carrega princípios de bem deve ser destacado. Aliás (minha opinião) é o que deve principalmente ser destacado… E é o que eu tento trazer aqui, já que considerável parte da mídia não oferece.

Não conheço um blog que destaca boas reportagens na mídia, então abro um pequeno espaço aqui para isso: “Economista descarta risco de recessão no Brasil em 2009”

Destaco esta reportagem pois emite uma opinião sobre o que tem ocorrido e o que deve acontecer, mas uma opinião sensata, livre de artifícios, exageros ou distorções. Ao contrário de disseminar alarmismo e pessimismo, mostra o que é real.

Não ilude e aliena o leitor – ao contrário de algumas autoridades políticas em nosso país – da realidade difícil que viveremos no próximo ano. Contudo, mostra às pessoas também que não temos motivo algum para reclamar de nossa situação, frente à de tantos outros países.

Ao invés de prostrar o interlocutor numa posição pessimista e de passividade, esperando que um apocalipse econômico-financeiro invada sua vida, deixa claro que compomos uma economia forte e que depende de nós aproveitarmos as oportunidades que se abrem para nosso país com esta crise.


“Crise já afeta criação de vagas”… Já!?!?

dezembro 21, 2008
Crise já afeta a criação de vagas

Estado de Minas: Crise já afeta a criação de vagas

Título: “Crise já afeta a criação de vagas”

Jornal: Estado de Minas

Edição: Sábado, 20 de Dezembro de 2008, página 14, “Economia/TurBulência Global”

Jornalista: Paula Takahashi

A reportagem afirma que a crise financeira internacional já gerou um aumento no desemprego no mês de Novembro/08. Se ampara na hipótese de que em Novembro, “historicamente, os números do mercado de trabalho são bons”. Vejamos…

Em primeiro lugar, vamos aos dados originais, mas apresentando-os livres de uma análise tendenciosa: cobrindo um período de 7 anos. Porquê encontramos tendenciosidade ao analisar o histórico do desemprego em 12 meses (como fez o Estado de Minas)? Porque esta é uma variável econômica naturalmente influenciada por sazonalidade.

Em poucas palavras, podemos explicar a sazonalidade fazendo uma analogia com a agricultura. Muitas culturas agrícolas são sazonais, ou seja, há uma grande colheita numa ou duas épocas do ano, e pequena produção nos demais períodos. Analisar apenas 12 meses e dizer, por exemplo, que a agricultura brasileira perdeu eficiência apenas por termos observado uma queda de um mês para o outro é equivocado!

É preciso observar os meses de Outubro e Novembro de 2008 em comparação com os mesmos meses dos anos anteriores, para evitarmos que nossa análise seja contaminada pela sazonalidade ou por um evento isolado.

Vejamos ano a ano o que ocorreu com a taxa de desemprego na passagem do mês de Outubro para Novembro (Fonte: Banco de Dados SIDRA do IBGE – http://www.sidra.ibge.gov.br):

Veja no gráfico de nossa autoria:

Taxa de Desemprego para Outubro e Novembro (de 2002 a 2008)

Taxa de Desemprego para Outubro e Novembro (de 2002 a 2008)

Qual foi a crise – não anunciada – em 2004, quando a taxa de desemprego subiu de 10,5% em Outubro para 10,6% em Novembro!?

Em 2005 o Brasil estava à beira de uma crise devido ao fato da taxa de desemprego não ter caído, ficando estável a 9,6% em ambos os meses de Outubro e Novembro!?

Não havia crise em 2004, e muito menos em 2005. Ninguém arrancou os cabelos morrendo de medo de ser demitido no ano seguinte! Nenhuma empresa zerou seus investimentos e seus planos de contratação naqueles anos!

Não estamos comparando os anos de 2004, 2005 ou 2006 com o que virá em 2009. É claro que o Brasil sofrerá com esta crise e haverá uma significativa redução na taxa de crescimento do nosso PIB no ano de 2009, mas daí dizer que a taxa de desemprego subiu 0,1 ponto percentual por causa da crise e sair estampando manchetes “salve-se quem puder” nos jornais é pura impulsividade, irreflexão e irresponsabilidade.

Com este tipo de comportamento nós podemos acabar realmente gerando uma recessão mais profunda no Brasil, país que tem hoje uma das economias mais promissoras do mundo em meio a toda esta crise!

Temos certeza de que o Estado de Minas, periódico de grande respeito e tradição em MG, publicou a matéria acima com esta redação por um pequeno descuido, desatenção ou má orientação. Equívocos acontecem…

Mas os jornalistas devem se atentar para não repetir este tipo de erro, tão danoso para a sociedade, pois dissemina pensamentos pessimistas e de alarmismo inflados pelos excessos da imaginação. E nós, leitores, devemos nos atentar ainda mais para o que lemos, antes de sair comentando com os demais, nos tornardo veículos destes pensamentos.