Mais esclarecimentos sobre BC e intervenção no câmbio

maio 11, 2009

Há poucos dias o BC interviu no mercado de câmbio com contratos de Swap, o que acabou gerando desconfianças e especulações em vários segmentos da sociedade. Como o dólar estava caindo rápida e repentinamente, surgiram suspeitas de que a atitude da autoridade monetária estaria visando o favorecimento dos exportadores brasileiros.

No final, ficou esclarecido que o BACEN estava apenas aproveitando uma oportunidade para zerar a sua posição no mercado cambial futuro, ao qual estava muito exposto dadas as intervenções realizadas nos meses após a crise, com o intuito de segurar a volatilidade cambial e a forte alta do dólar.

Nada mais lógico. A função do BC não é ficar brincando ou especulando com o dinheiro do contribuinte, mas apenas equilibrar o mercado em situações totalmente adversas, como a que vivemos a partir de Setembro/2009 (devemos lembrar que, em caso de prejuízo do BC, quem cobre é o Tesouro, ou seja, o contribuinte).

Dias depois, o BC interviu no mercado à vista. Novas suspeitas foram levantadas. “E agora, já zerou a posição em Swap, pra quê mexer no câmbio, sr. Meirelles?”

Novamente tudo esclarecido: “BCs de emergentes defendem elevação das reservas“.

Penso que, pelo que tem realizado nos últimos anos, a gestão atual do BC do Brasil merece meu voto de confiança, durante o tempo necessário para a apuração dos fatos…

Mas fica aí uma amostra de que talvez a comunicação da instituição com a sociedade ainda possa ser melhorada!


Metodologia de cálculo da Febraban resulta em spread artificial

fevereiro 16, 2009

Fiz um pequeno estudo sobre a metodologia de cálculo do spread bancário recentemente proposta pela Febraban, que acabou gerando assunto pra mídia e um certo desconforto entre a entidade e o Banco Central.

A minha conclusão pessoal é de que, ao menos em parte, o resultado da nova metodologia é artificial e merece algumas revisões.

Veja o porquê no post que publiquei no blog do Nepom: “Cálculo da Febraban pode resultar spread artificial”.


Contradições heterodoxas

fevereiro 11, 2009

Estadão: “Skaf defende adoção de política econômica heterodoxa”

Afirma uma coisa e depois dá um argumento contrário…

“O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, defendeu hoje a adoção de uma política econômica heterodoxa no País. (…) Skaf afirmou que seria ‘saudável’ ao Brasil abandonar a linha monetarista para a adoção de uma política desenvolvimentista.”

Mesmo que eu tenha uma visão diferente, respeito a opinião, mas desde que traga um argumento para debate. O argumento do opinante é contrário à sua própria opinião! Como pode haver debate de idéias assim!?

“‘O Brasil está há 20 anos e não pode ficar mais 20 anos falando em inflação, se a inflação nem existe mais‘, declarou à imprensa, ao ressaltar que a expectativa inflacionária para este ano é de 4,0%, abaixo do centro da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional, de 4,5%.”

Se a “linha monetarista” obteve sucesso no controle da inflação – como o próprio Skaf admite -, porquê então abandoná-la agora? Se, além disso, durante a adoção da “linha monetarista”, o Brasil teve uma média de crescimento acima da média das décadas anteriores, porquê então abandoná-la agora!?

Eu respondi a essas perguntas no post: “Quem se beneficia com juros altos? Bancos? Errado! É você!”

Há minorias oportunistas que se beneficiam mais com a “linha desenvolvimentista”, à qual Skaf é favorável, do que com a “linha monetarista”, mesmo que isso signifique prejuízo para a grande maioria dos cidadãos brasileiros, à classe média e, principalmente, aos de classe econômica mais baixa.


Premissa duvidosa

fevereiro 10, 2009

“Queda de juros reduz dívida pública do país”, do Estadão:

“O Banco Central (BC) calcula que, para cada ponto porcentual de redução da Selic, a dívida pública líquida cai 0,25% do PIB, também depois de um ano.”

Mas a previsão oficial do BC é de que o crescimento do PIB brasileiro em 2009 será maior que 3%, o que eu e muita gente duvida que irá se concretizar…

Será que o cálculo do BC se baseia numa premissa duvidosa a respeito do crescimento do produto?

Outra coisa: estaria o BC lembrando de que a arrecadação tributária do governo deverá cair com a redução na atividade econômica? Isso deverá elevar a necessidade de financiamento do setor público, caso os gastos não sejam reduzidos.

Seria interessante se o cálculo fosse feito considerando vários cenários do PIB e da arrecadação, para sabermos com maior clareza qual poderá ser o comportamento da dívida pública relativamente ao produto.


Bacen X Febraban

fevereiro 1, 2009

A troca de farpas (desnecessária, por sinal) entre o BC e Febraban, acerca do spread bancário, coloca por terra os argumentos de alguns grupos oportunistas que tentavam manipular a opinião pública a favor de quedas injustificadas da Selic, alegando que o Banco Central seria um mero fantoche dos banqueiros…

“Governo prepara ataque ao spread”

“(…) a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) divulgou balanço sobre o spread com metodologia diferente da usada pelo BC.”

“O questionamento público da metodologia de cálculo do spread só aumentou o desconforto do BC com o problema, mas a diretoria do banco resiste à divulgação do ranking dos spreads.” (31 de janeiro)

Parece que mudaram de idéia:

“BC vai divulgar ranking de spread por bancos”

“O ranking das instituições financeiras que praticam os maiores spreads (diferença entre a taxa de captação e a repassada ao consumidor) será publicado no site do Banco Central tão logo a metodologia de cálculo esteja definida.” (01 de fevereiro)

O que dirá, agora, a imprensa?


Nas palavras de Armínio Fraga…

janeiro 28, 2009

O que comentei um pouco em posts anteriores, trago nas palavras de Armínio Fraga – “O juro cairá mais rápido se o governo for paciente” (agradeço a citação da matéria pelo GreenFish):

Estadão: E o Brasil, está entrando em um ciclo econômico normal?

A. Fraga: Estamos vivendo um ciclo mais normal. Cabe ao governo – e ao BC – tentar suavizar, mas é impossível evitar totalmente.

Estadão: Até onde deve ir essa suavização?

A. Fraga: Infelizmente, na área fiscal, apesar do superávit primário, nós abusamos, nos últimos 10 ou 15 anos , do direito de crescer o gasto. Embora nossa relação dívida/PIB líquida seja de 35%, a bruta está em 55%. Não é tão baixa quando se leva em conta o nosso juro. Deve-se tomar cuidado antes de fazer alguma coisa. Não cabe exagerar, inclusive no crédito. Se o governo tiver um pouquinho de paciência, ao longo do tempo, o BC pode surpreender quanto a cortes do juro. É um jogo de paciência que seria muito bom para nós. Lá na frente vem uma recompensa muito grande.

Estadão: O que é ser prudente?

A. Fraga: Não gastar muito, começar a fazer algumas reformas que precisam ser feitas e ter um pouquinho de atenção com questões de longo prazo mais estruturais.


Manual rápido de Sistema de Metas para Inflação

janeiro 28, 2009

Veja a entrevista de Henrique Meirelles, concedida ao Estadão: “Bancos públicos serão mais decisivos”

Pra quem criticava a atuação do Banco Central sem muito conhecimento do que fala, aqui está um rápido e bom manual de consulta para leigos (principalmente para a imprensa):

HM: “Quando assumimos (2003), a inflação anualizada estava acima de 20% e o País beirava a insolvência. As reservas aproximavam-se do mínimo acordado com o FMI e vendíamos dólares diariamente para controlar os mercados. O risco Brasil estava em 1.400 pontos e o dólar, a R$ 3,40. Não existe consenso sobre as razões que levaram o País àquela crise, mas ninguém duvidava da sua gravidade. O desafio foi enfrentar todos os problemas ao mesmo tempo em que construíamos as bases para a estabilização e para um crescimento sustentado.”

HM: “Quando assumimos (2003), a taxa Selic estava em 25% ao ano e os juros de mercado eram substancialmente mais elevadas. A taxa de juro de 360 dias na BM&F era 14% reais (acima da inflação esperada). Hoje a Selic está em 12,75% e a taxa real é a mais baixa já registrada. É natural, no entanto, que muitos fiquem impacientes e queiram uma queda rápida, particularmente quando o benefício da estabilidade é uma experiência nova no Brasil. Os resultados mostram, no entanto, que o ritmo foi adequado.”

HM: “Quando a crise atingiu o Brasil, estávamos crescendo a 6,8% ao ano, a demanda doméstica a 9,3% e a inflação acima de 6%. O crescimento médio do PIB de 2004 a 2008 foi de 5%, enquanto a média dos últimos 20 anos foi de pouco mais de 2%. A inflação variou dentro do intervalo de tolerância da meta, nunca abaixo do piso. As avaliações que tenho visto no mundo são de que esses indicadores da economia brasileira não refletem uma política monetária excessivamente conservadora (essa parte é ótima pra imprensa que adora fazer comparação, sem sentido nenhum, entre os juros brasileiros e de outros países). As taxas de juros reais estão caindo gradualmente no Brasil e a tendência é que continuem caindo no longo prazo, desde que sejam mantidas políticas responsáveis que assegurem a queda dos prêmios de risco. A crise externa nada tem a ver com a política monetária brasileira. Aliás, ironicamente, a atual crise mundial é resultado de um longo período de juros excessivamente baixos nos Estados Unidos, política que na época era tão elogiada por aqui (por falar nisso, cadê eles agora?). A crise tem de ser enfrentada com o diagnóstico correto e medidas precisas que ataquem as causas reais dos problemas sem criar desequilíbrios que no passado fizeram com que substituíssemos crises externas por crises internas.”

HM: “Em um regime de metas de inflação é fundamental que a comunicação do BC seja eficaz. Para isso, o BC precisa ter credibilidade, o que significa ser realista e dizer a verdade, mesmo que não seja a mensagem mais agradável naquele momento. Se os agentes respeitam o BC, apostarão no cumprimento da meta e, como resultado, os custos sociais diminuirão consideravelmente. Com esses pressupostos, um banco central tem considerável grau de influência na formação de expectativas.”

Nada a acrescentar…

Ressaltando a última frase: formação, e não desorientação de expectativas!