Juros, inflação e custo marginal

maio 3, 2009

A Folha de São Paulo publicou uma matéria intitulada “Veja como a taxa básica de juros influencia a economia“. O intuito, pelo que percebi, foi muito bom: esclarecer à população o que há por trás destes assuntos dos quais tanto se fala, como decisões do Banco Central, inflação, taxas de juros, crescimento econômico, etc.

Vejo que este tipo de informação falta muito aos brasileiros leigos em economia e finanças, que acabam ouvindo e falando sobre o que não sabem, tendo as opiniões frequentemente manipuladas, e caindo facilmente em crenças, preconceitos e contradições.

Portanto, parabenizo a iniciativa da Folha.

Há apenas um ponto que gostaria de propor correção na reportagem, no primeiro parágrafo:

“Se os juros caem muito, a população tem maior acesso ao crédito e consome mais. Este aumento da demanda pode pressionar os preços caso a indústria não esteja preparada para atender um consumo maior.”

Na realidade, o aumento de preços no curto prazo não é provocado pela falta de capacidade da indústria para atender à maior demanda.

inflacao_custo_marginal

O que ocorre, na verdade, é que na esmagadora maioria dos casos, as indústrias se defrontam com curvas de custo marginal crescentes.

A indústria muitas vezes tem capacidade de atender à maior procura pelos bens. Mas, dado o parque produtivo e a tecnologia de produção (ambos fixos no curto prazo), níveis de produção mais altos implicam custos marginais mais elevados também.

E isto acaba elevando o preço dos produtos no mercado, dado que um empresário racional não irá vender seu produto abaixo do custo marginal, se quiser que sua indústria sobreviva!

É por este motivo que o Banco Central muitas vezes responde às reclamações do empresariado sobre os juros altos alegando que o nível de investimentos em produção no Brasil devem ser mais elevados. Veja o gráfico abaixo:

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Os investimentos na produção e em tecnologia deslocam a curva de custo marginal para a direita, pois permite que as indústrias produzam mais com o mesmo custo. Mas é relevante esclarecer que estas mudanças só ocorrem no longo prazo, dado que este tipo de investimento costuma ter um longo prazo de maturação.

PS.: este raciocínio vale também para mercados que operam em concorrência imperfeita (ex.: monopólio, oligopólio).

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“Análise”: piadas econômicas da BBC!

maio 2, 2009

Análise: Crise financeira pode atenuar impacto econômico da gripe“. Esta reportagem me rendeu ótimas risadas!

A palavra “análise”, no início da manchete, eu achei particularmente fantástica! Muito boa a piada… (bom, eu espero que isso seja piada!!)

“Para alguns, o impacto [da gripe suína] pode ser bem grande, porque a economia global já se encontra em um estado de fragilidade por causa da crise financeira.”

“À primeira vista, este argumento parece sensato [sacou? só à primeira vista!]. Poderíamos até dizer que o sistema imunológico da economia global está muito debilitado para lidar com acabar com [sic] esta doença.”

“Mas o oposto também pode ser verdadeiro. O custo econômico do surto deste vírus pode ser, na verdade, menor do que se ele tivesse acontecido em um momento diferente. Isto porque grande parte dos ganhos de produtividade que poderiam ser perdidos por causa do vírus já foi perdida para a recessão econômica.”

“O oposto também pode ser verdadeiro”… Me lembrou aquela historinha da física quântica pra leigos: um coelho (ou sei lá qual bicho) dentro de uma caixa, antes de abri-la, pode estar vivo e morto ao mesmo tempo!

Ta aí!… Física quântica aplicada à economia! Muito bom, muito bom…

Ah, e repare os “ganhos de produtividade que poderiam ser perdidos”!

“Para colocar de modo mais simples, se, por causa da epidemia, pessoas desempregadas são obrigadas a ficar em casa por algumas semanas, isto tem um custo econômico menor do que se elas tivessem empregadas.”

É, e isso é bom porque elas não ficam frustradas por estarem desempregadas. Elas não podem sair de casa pra procurar emprego mesmo!! Gente, que maravilha!

“Além disso, se, graças à crise econômica, as pessoas já estão indo menos a restaurantes, cinemas, entre outras coisas, a queda no consumo por causa da gripe acaba sendo menor do que se ela tivesse aparecido em outra época.”

Resumindo: a coisa está tão feia, que não tem como piorar!! hahaha Não é ótimo!?

E você achou que eles acabariam por aqui?

“É claro que não podemos ir muito longe com este argumento [não se anime, continue lendo]. Qualquer pandemia que mate milhões de membros da população economicamente ativa teria um enorme impacto de longo prazo em nossa produtividade potencial [ahn!?], não importando se elas estivessem empregadas ou não.”

Meu Deus…

“Esta previsão se baseia na suposição de que a eventual epidemia tenha as proporções da chamada ‘gripe espanhola’, de 1918, que infectou quase um terço da população mundial e matou cerca de 50 milhões de pessoas. O estudo diz que um surto desta magnitude levaria o mundo a uma depressão.”

Estou começando a achar que essa coisa de jornalista querer comparar tudo com o início do século passado (1929, por ex) é uma “pandemia” ou algo do tipo!!

Olha… Pensando bem, essa gripe suína vai ser ótima! O setor de varejo e de alimentos vai faturar muito alto, pelo menos no curtíssimo prazo! Bom, depois eu explico essa minha previsão… Agora deixa eu terminar este post que tenho que ir correndo pro supermercado estocar comida!


Economia e finanças de uma forma fácil e didática?

abril 28, 2009

Recomendo muito ao leitor que conheça um novo blog de economia e finanças, mantido por ex-alunos da FEA-USP e que promete bastante!

Criado para compartilhar idéias sobre economia, finanças pessoais, educação financeira, mercado financeiro com o objetivo de ajudar aos leitores a entender melhor o mundo econômico e buscar sua independência financeira.”

Segue o link: Economia e Finanças Fáceis


Tiro pela culatra

abril 28, 2009

E parece que não foi só o Presidente Lula que se irritou com declarações do FMI:

“Os bancos brasileiros estão sólidos, porque o Brasil tem uma regulação muito mais rigorosa do que a maioria dos países. Os bancos brasileiros continuam tendo lucros, e lucros elevados. É um sinal de solidez.” – ministro Mantega

Engraçado… O Citibank anunciou há poucos dias um lucro de R$1,59 bilhões no primeiro trimestre de 2009! Deve ter uma solidez de aço, né? Não sei com o que esse Obama está se preocupando lá… Pessoal desorientado. Tá dando lucro, tá sólido ora!

Esta é a diferença de um presidente que sabe nomear seus ministros. Aqui o Lula está tranquilo,  só na marolinha!… Claro, com um ministro desta estatura ao seu lado. Já o Obama… Ah, o Obama, coitado…

PS.: será que o ministro da fazenda estaria disposto a apostar seu patrimônio em ações do banco norte-americano altamente lucrativo?


Como se o discurso marolinha tivesse autoridade…

abril 28, 2009

Disse o Presidente da República Federativa do Brasil:

“O FMI, há muitos anos, não tem autoridade para dar palpite sobre economia brasileira. Quando deu, afundou o Brasil. Fica o FMI lá, não dê palpite, e deixe que nós tomemos conta do Brasil”

Como se o discurso marolinha tivesse autoridade para palpitar… Ok, relevemos.

Mas o que não dá pra relevar é isso: “Brasil entrará para o grupo de credores do FMI com aporte de US$ 4,5 bilhões”.

Quer dizer então que o FMI é um organismo incompetente que afunda os países alheios. Quando supostamente “afundou” o Brasil, Lula não gostou. Mas afundar o país dos outros o governo federal acha legal então?

“Colômbia pede linha de crédito de US$ 10,4 bilhões ao FMI”

“FMI aprova linha de crédito de US$ 47 bilhões para México”

“Turquia pode receber crédito de até US$ 45 bi do FMI”

Sem mais comentários.

PS.: não sou contra a entrada do Brasil como credor do FMI; apenas questiono o discurso incoerente do governo sobre o organismo internacional;


Nepom e o Google Trends

abril 14, 2009

Se o leitor tiver sugestões de bibliografia (veja o blog do Nepom), serão muito bem vindas!


Em concorrência imperfeita, não adianta chorar

abril 14, 2009

O Estado de Minas publicou recentemente uma matéria que fala, também, sobre o mercado de álcool combustível: “Com demanda menor, consumidor reclama de preço alto“.

A reclamação do jornal é de que “a queda de preços que atingiu o setor produtivo não chega com a mesma intensidade ao bolso do consumidor”:

“Nas usinas, a superoferta de álcool fez o preço despencar, enquanto nos postos de gasolina o valor cobrado pelo combustível que abastece a frota flex é praticamente o mesmo.”

“Nas usinas, o litro do álcool encolheu de R$ 0,64 para R$ 0,59, entre fevereiro e março. Segundo pesquisa do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP), a queda média para quem produz, no primeiro trimestre, foi de 28%. Na outra ponta, levantamento da Agência Nacional do Petróleo (ANP) demonstra que, para o consumidor, o álcool ficou 4% mais barato (…)”

Eles citaram pesquisas estatísticas, portanto não são meras especulações – partindo do pressuposto de que estes números estão corretos e refletem a realidade de todo o país. De fato, a reclamação parece ter fundamento: se o preço do produto na usina caiu, por que o consumidor viu apenas uma pequena parte desta queda? Pra onde está indo a diferença?

Eu, como consumidor, se tivesse a opção, também escolheria ver o preço final cair na mesma proporção, é óbvio!

Acontece que este mercado não se configura como monopsônio (apenas um consumidor demandando toda a produção), muito pelo contrário. Por outro lado podemos admitir a hipótese de monopólio, dado que a BR Distribuidora controla, se não me engano, mais de 90% do mercado de distribuição de combustíveis no país.

Veja o gráfico abaixo (clique para ampliar):

O leitor pode observar três pontos circulados em vermelho. O nº 1 se refere à situação inicial. O custo marginal está mais alto e se refere ao preço anterior do álcool nas usinas. Com a queda no custo marginal (preço do litro de álcool cai para a BR Distribuidora), teremos um novo ponto, com preço mais baixo e quantidade comercializada maior, onde se iguala o novo custo marginal e a receita marginal: o nº 2.

Acontece que o álcool combustível possui a gasolina como bem substituto (podemos considerar como substitutos perfeitos). Para o caso da demanda por álcool, todos os consumidores têm a gasolina como opção, dado que não temos mais no mercado número significativo de carros movidos somente a álcool.

Tínhamos anteriormente, portanto, alguns proprietários de carros flex consumindo gasolina. Ao novo preço do álcool mais baixo, uma parcela deles preferirá deixar de consumir gasolina e passar a consumir álcool, elevando a demanda por este último combustível. Aí nos encontraremos no ponto nº 3 destacado no gráfico.

O ponto nº 2 não é um equilíbrio estável, pois ignora a relação de substituição entre a gasolina e o álcool e os efeitos das variações no preço do álcool sobre a demanda por álcool. Em termos técnicos: encontramos endogeneidade neste problema.

O leitor pode perceber que o preço final (nº 3) é maior que o intermediário (nº 2). Isso ocorre pelo próprio aumento da demanda por álcool. O que está ocorrendo? A apropriação do excedente gerado pela queda do custo marginal é maior por parte do monopolista do que por parte do consumidor. É por isto que o motorista se sente “lesado” ao ver isto acontecer…

Esta análise é válida, obviamente, considerando constantes todos os demais parâmetros, como o preço da gasolina, e também que a BR Distribuidora e o governo – seu controlador – não são casas de caridade.

Então, motoristas e jornalistas: não adianta chorar. São essas as regras do mercado.