Em concorrência imperfeita, não adianta chorar

O Estado de Minas publicou recentemente uma matéria que fala, também, sobre o mercado de álcool combustível: “Com demanda menor, consumidor reclama de preço alto“.

A reclamação do jornal é de que “a queda de preços que atingiu o setor produtivo não chega com a mesma intensidade ao bolso do consumidor”:

“Nas usinas, a superoferta de álcool fez o preço despencar, enquanto nos postos de gasolina o valor cobrado pelo combustível que abastece a frota flex é praticamente o mesmo.”

“Nas usinas, o litro do álcool encolheu de R$ 0,64 para R$ 0,59, entre fevereiro e março. Segundo pesquisa do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP), a queda média para quem produz, no primeiro trimestre, foi de 28%. Na outra ponta, levantamento da Agência Nacional do Petróleo (ANP) demonstra que, para o consumidor, o álcool ficou 4% mais barato (…)”

Eles citaram pesquisas estatísticas, portanto não são meras especulações – partindo do pressuposto de que estes números estão corretos e refletem a realidade de todo o país. De fato, a reclamação parece ter fundamento: se o preço do produto na usina caiu, por que o consumidor viu apenas uma pequena parte desta queda? Pra onde está indo a diferença?

Eu, como consumidor, se tivesse a opção, também escolheria ver o preço final cair na mesma proporção, é óbvio!

Acontece que este mercado não se configura como monopsônio (apenas um consumidor demandando toda a produção), muito pelo contrário. Por outro lado podemos admitir a hipótese de monopólio, dado que a BR Distribuidora controla, se não me engano, mais de 90% do mercado de distribuição de combustíveis no país.

Veja o gráfico abaixo (clique para ampliar):

O leitor pode observar três pontos circulados em vermelho. O nº 1 se refere à situação inicial. O custo marginal está mais alto e se refere ao preço anterior do álcool nas usinas. Com a queda no custo marginal (preço do litro de álcool cai para a BR Distribuidora), teremos um novo ponto, com preço mais baixo e quantidade comercializada maior, onde se iguala o novo custo marginal e a receita marginal: o nº 2.

Acontece que o álcool combustível possui a gasolina como bem substituto (podemos considerar como substitutos perfeitos). Para o caso da demanda por álcool, todos os consumidores têm a gasolina como opção, dado que não temos mais no mercado número significativo de carros movidos somente a álcool.

Tínhamos anteriormente, portanto, alguns proprietários de carros flex consumindo gasolina. Ao novo preço do álcool mais baixo, uma parcela deles preferirá deixar de consumir gasolina e passar a consumir álcool, elevando a demanda por este último combustível. Aí nos encontraremos no ponto nº 3 destacado no gráfico.

O ponto nº 2 não é um equilíbrio estável, pois ignora a relação de substituição entre a gasolina e o álcool e os efeitos das variações no preço do álcool sobre a demanda por álcool. Em termos técnicos: encontramos endogeneidade neste problema.

O leitor pode perceber que o preço final (nº 3) é maior que o intermediário (nº 2). Isso ocorre pelo próprio aumento da demanda por álcool. O que está ocorrendo? A apropriação do excedente gerado pela queda do custo marginal é maior por parte do monopolista do que por parte do consumidor. É por isto que o motorista se sente “lesado” ao ver isto acontecer…

Esta análise é válida, obviamente, considerando constantes todos os demais parâmetros, como o preço da gasolina, e também que a BR Distribuidora e o governo – seu controlador – não são casas de caridade.

Então, motoristas e jornalistas: não adianta chorar. São essas as regras do mercado.

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