“Indicadores macroeconômicos já sofrem impacto da crise”… Já, também!? Poxa, que coisa!

E bota coisa nisso! Esta crise está rendendo viu!..  Esses dias vi muitas manchetes interessantes, mas esta me chamou a atenção particularmente! Sinceramente – falando sério mesmo – quando eu vi esta manchete já imaginei: essa aqui vai estar recheada de pérolas! Reportagem sobre variáveis macroeconômicas em meio a uma crise internacional!? Ah.. era de se imaginar!

Agora foi a vez da Folha de São Paulo: “Indicadores macroeconômicos brasileiros já sofrem com a crise.” (Acesso em 24/12/2008 às 15h, horário de Brasília)

“Apesar da tentativa do governo federal em minimizar os impactos da crise financeira internacional no país, os resultados divulgados pela equipe econômica nesta terça-feira, referentes a novembro, mostram que os efeitos negativos já atingiram a economia real. ” (Agora é cada um por si! Salve-se quem puder!)

Bem, eles foram mais generosos com meu blog do que o Estado de Minas… Cometeram equívocos em série. Irei destacar os principais a seguir.

A única coisa que falaram na reportagem que tem realmente relação com a crise é o aumento do spread bancário. Fora isso, vejam que tragédia…

Inadimplência

“De acordo com dados do Banco Central, (…) a inadimplência da pessoa física atingiu um recorde negativo que era de agosto de 2003 (…)”.

“(…) a inadimplência de pessoas físicas subiu para 7,8% em novembro deste ano, ficando apenas atrás do resultado de agosto de 2003, quando a taxa bateu 7,9%.”

Ok… Faltou uma coisa: anunciarem um subprime brasileiro!!

E jornalistas, quando forem falar de dados, façam-me um favor: expliquem que dados são e daonde saíram! Pra entender que inadimplência é essa à qual se referiam tive que ir caçando os números até bater com os deles!..

Facilito para o leitor: eles falam do percentual médio de financiamentos a Pessoas Físicas inadimplentes há 90 dias ou mais.

O último dado que temos – e que foi apresentado pela Folha – é de novembro.

Humm.. Novembro, mês 11.. tá..

90 dias = 3 meses.. ok..

11 – 3 = ……… 8!! 8 é o mês…. deixe-me ver… Agosto! isso!

Então os contratos de financiamento ao qual nos referimos entraram em atraso no máximo até Agosto.

Cá entre nós: ainda bem que eu estudo economia, senão nunca que conseguiria fazer essas contas! Imaginem jornalistas! Deviam ensinar isso nas escolas viu…

Bem… Até o mês de Agosto, o sistema financeiro internacional ainda não tinha “derretido” – tomei a liberdade de me apossar do jargão jornalístico! Será que a Folha supõe que os contratantes destes financiamentos já sabiam data e hora do ápice da crise financeira, se anteciparam a ela e pararam de pagar as contas por sei lá qual motivo!? Não encontrei explicação melhor para o raciocínio deles…

O leitor concorda que para captar uma influência de um fato ocorrido sobre o que quer que seja, seria mais prudente avaliar dados que reflitam o que ocorreu depois de consumado o fato? Ou seja, pra saber se a crise influenciou a inadimplência eu preciso analisar a inadimplência depois da crise, ora!

Então porquê não analisaram os contratos com atraso entre 15 e 90 dias!? Sim, tem lá no mesmo banco de dados do Banco Central que eles consultaram! Pois é, não sei porque usaram dados de antes da crise… Olha, é só uma suspeita, mas talvez seja porque a inadimplência, depois da crise, tenha caído (!!) – 6,54% em outubro para 6,49% em novembro! Imagina só a manchete no meio de uma crise internacional: “Inadimplência cai!” Poxa, que coisa mais sem graça…

Taxas de Juros

Antes de entrar em cheio nas próximas pegadinhas da Folha, permitam-me comentar uma frase dessa reportagem: “(…) a previsão é que o crédito cresça apenas 16% em 2009, a metade do resultado deste ano.”

APENAS 16%?? Num país cujo PIB crescerá – se muito – 3%!? No meio de uma crise FINANCEIRA internacional sem precedentes desde 1929!? É realmente uma expansão pífia do crédito… Isso no meio bancário dos EUA, que vai de vento em popa, ia ser a piada do ano! Vão rir da nossa cara!.. Tá… Bom, pelo menos tiveram a idéia iluminada de colocar mais à frente uma declaração de um analista do BC ressaltando que “crescer 16% não é trivial.”

Vamos aos juros… Veja que terror! Já estocou comida!? Olha, se fosse você… Vai saber né…

“Segundo o BC, a taxa de juros do cheque especial em novembro atingiu o maior nível desde junho de 2003, passando de 170,8% ao ano em outubro para 174,8% no mês seguinte.”

“A taxa do crédito pessoal também aumentou de 57,5% ao ano em outubro para 60,6% ao ano em novembro.”

“No geral, os juros para pessoa física subiram 3,8 pontos percentuais em novembro, alcançando 58,7% ao ano, o maior nível desde março de 2006.”

Uau!!

Vamos ver um gráfico que esse post já está ficando cansativo de texto…

Taxas de Juros (% a.a.)

Taxas de Juros (% a.a.)

Veja só, todas começaram a subir simultaneamente. É a crise!! Mas… espera um pouco. Começou a subir em janeiro de 2008… O ápice da crise não foi em setembro?

Ahá! Não são só os tomadores de empréstimos, os banqueiros também são videntes!! E mais espertos também, pois já sabiam de tudo no início do ano!!

Façam-me o favor… Não precisamos estudar economia pra saber que as taxas de juros básicas da economia (sim, a Selic) têm influência direta nas taxas de juros de varejo bancário. Isso porque as taxas do CDI seguem muito de perto a Selic, e os bancos usam o CDI para se financiarem e concederem empréstimos, principalmente de curto prazo, como o cheque especial. Estão todos de mãos dadas! Se um vai pra cima, o resto vai junto… E vice-versa.

CDI: Certificado de Depósito Interbancário – é um dos principais meios de captação de recursos usados pelos bancos

Meu professor de Finanças, Eduardo Coutinho, já dizia: “Banco não é casa de caridade.” Traduzindo: se o BC toma emprestado pagando 13,75% a.a., um banco não vai emprestar pra outro banco, pra você e nem pra mim por menos do que isso!

Veja:

Taxas Selic e CDI anualizadas

Taxas Selic e CDI anualizadas

Parece ter alguma ligação? A correlação estatística é de 99,99%. Com as duas séries em primeira diferença (ou seja, a taxa de variação de um mês em relação ao anterior), a correlação é de 98,55%

Em primeira diferença, a correlação entre a variação do cheque especial, por exemplo, e a variação na Selic é de 56%. Nada mal, levando em considereção que as taxas de juros no varejo bancário são formadas também a partir de outros fatores, tais como expectativa de inflação, risco, custos de transação, impostos, entre outros. Não estimei regressões com outras variáveis além da Selic, pois não vem ao caso – dos leitores economistas que quiserem se arriscar, eu gostaria de receber notícias… Os demais (crédito pessoal, total PF e PJ) têm correlação entre 40% e 50% com a Selic.

Taxa de variação no mês - Crédito Pessoal e Selic

Taxa de variação no mês - Crédito Pessoal e Selic

O BC não deixa isso muito claro na metodologia de coleta dos dados disponibilizados, mas se nas taxas de juros do varejo bancário estiverem embutidos os impostos diretos das operações, o aumento da alíquota do IOF – após a extinção da CPMF – explica o pico da variação em Janeiro/08 (gráfico acima), que se repete em todas as modalidades de financiamento.

A matéria ainda se arrisca sobre as contas do governo, déficit primário…. Não vou me adentrar nisso em preservação da síntese (que já abusei neste post) e porque a esta altura o leitor já deve ter descartado a hipótese de  absorver algo desta reportagem da Folha, especificamente. Então, missão cumprida…

Novamente quero deixar claro que nós sabemos que a Folha Online publicou a matéria em questão tal como nos apresenta em seu site, por um pequeno descuido, desatenção ou má orientação. Equívocos acontecem…

E repito: os jornalistas devem atentar para não reincidir nestes tipos de erros, tão danosos para a sociedade, pois disseminam pensamentos inflados pelos excessos da imaginação, de índole pessimista e alarmista. E nós, leitores, devemos atentar ainda mais para o que lemos, antes de sair comentando com os demais, tornando-nos veículos destes pensamentos.

6 Responses to “Indicadores macroeconômicos já sofrem impacto da crise”… Já, também!? Poxa, que coisa!

  1. […] claudio in Uncategorized. Tags: blogosfera, Blogs de economia trackback Renato faz um belo post aqui. Há poucos (muito poucos) erros ortográficos que, ao serem corrigidos, tornam o trabalho dele […]

  2. Philipe M. disse:

    Excelente post.

  3. wanderson disse:

    Vc acha q o dolar vai aumentar consideravelmente ate julho de 2009? Ou seja quem estiver morando no exterior e estiver com dolar guardado e esperando pra enviar para o brasil… deveria envia-lo ja ou deveria aguardar mais um pouco pra pegar uma cotacao melhor para seus dolares?

  4. Renato Byrro disse:

    Olha, Wanderson.. Eu não sou especialista em câmbio – estou bem longe disso -, e prever a trajetória cambial é tarefa monumental e árdua até para especialistas (imagine com essa crise!). Então trago a opinião deles a você: o último relatório Focus do BC (http://www4.bcb.gov.br/?FOCUSRELMERC) revela que o mercado espera que o dólar feche 2009 cotado a R$2,20.
    Eu, particularmente, não espero nem um pouco que o dólar ultrapasse R$2,50 e siga subindo em 2009, por vários motivos que não vem ao caso aqui. Mas se eu tivesse dólares no exterior esperando uma boa hora para trazê-los, aproveitaria essa média de R$2,40 e traria antes do Reveillon, para comprar uns fogos a mais!
    Boas festas e um feliz 2009!

  5. Manoel Freitas disse:

    Conheci ainda agora seu site, achei interessantes os comentários (e todos devidamente fundamentados). Um alerta para sempre analisarmos bem as notícias, uma vez que a ânsia pela divulgação (e, porque não dizer, pela “audiência”) pode fazer com que tais matérias contenham inverdades ou equívocos. E olha que não sou adepto das teorias conspiratórias, que dizem que tais incorreções são propositais…

  6. […] Nova reportagem da Folha, repetindo os mesmos equívocos que destaquei neste post: “Indicadores macroeconômicos já sofrem impacto da crise”… Já, também!? Poxa, que coisa! […]

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