Uma pessoa prevenida vale por duas! (parte III)

dezembro 29, 2008
Terminando esta sequência de posts, enfim uma declaração correta na reportagem da Agência Brasil:

“(…) muita gente vinha rolando dívida ou substituindo por outras. Agora, com a perda de confiança das instituições financeiras, renovar crédito ou fazer novos financiamentos fica mais difícil (…)”

Neste aspecto a matéria foi fiel à realidade. Vejamos abaixo o gráfico com o desenvolvimento do prazo médio dos financiamentos às pessoas físicas desde o ano 2000:

Prazo Médio dos Financiamentos às PF (em nº de dias)

Prazo Médio dos Financiamentos às PF (em nº de dias)

Já pode ser observada uma redução no prazo médio no final de 2008 – queda de 1,5% na passagem de outubro para novembro. Apenas nos anos 2000 e 2001 foram observadas quedas no prazo médio neste período.

Há apenas mais um ponto que gostaria de destacar desta matéria:

“Segundo dados do Banco Central, as instituições financeiras reforçaram suas provisões de outubro (R$ 61,301 bilhões) para novembro (63,431 bilhões) deste ano em R$ 2,13 bilhões, porque com a crise há expectativa de maiores perdas.”

O aumento das provisões de perdas subiu quase 3,5%, o que é algo tranquilizador e não motivo para pânico. Ninguém quer o sistema financeiro e de crédito brasileiro indo à bancarrota por incompetência na administração do risco de inadimplência, não é verdade!? Se existe expectativa de aumento da inadimplência, os bancos devem mesmo elevar suas provisões.

Um dos principais erros cometidos pelo sistema financeiro norte-americano foi justamente este! Os bancos americanos foram pegos desprevenidos pelo calote dos mutuários de financiamentos habitacionais… Só que lá (nos EUA) não houve um excesso de confiança apenas nos devedores, mas também em um outro ator que foi o protagonista desta crise e que não está recebendo muita atenção da mídia: o Governo dos EUA!

Bom, vou ficar por aqui, pois irei tratar deste assunto nos próximos posts… Mas já adianto que os grandes vilões desta crise não são os executivos de bancos ‘gananciosos, egoístas e devoradores de criancinhas’ como têm divulgado. A própria imprensa já adiantou isso muitos anos atrás, mas parece que se esqueceram…

Boas festas e um feliz 2009! Até janeiro…


Uma pessoa prevenida vale por duas! (parte II)

dezembro 28, 2008

Continuando a análise do post “Uma pessoa prevenida vale por duas! (parte I)“…

“Outro fator observado pelo economista é que o aumento da taxa de desemprego (…) também é um fator que pode levar a maior inadimplência.”

Resolvi analisar estatisticamente a relação entre o desemprego e a inadimplência. Intuitivamente, parece realmente ter relação: se uma pessoa perde o emprego, o risco de calote para seus compromissos financeiros deve aumentar!..

Rodei algumas regressões (um método estatístico para analisar a relação entre duas ou mais variáveis) entre diversas variáveis de inadimplência contra a série de desemprego, de março/02 a novembro/08. Obtive resultados que corroboram uma possível relação, que não chega a ser desprezível em alguns casos, mas também não é lá o que a mídia anuncia. Há fortes indícios de que deve haver outros fatores com influência muito maior na taxa de inadimplência do que o desemprego simplesmente.

Segue abaixo o coeficiente de determinação para cada uma das variáveis que analisei. Este coeficiente mostra, aproximadamente, o percentual de variação de uma variável (inadimplência) que pode ser explicado pela variação em outra variável (desemprego).

Meio confuso, não é? Em resumo, é uma medida do grau de importância (quanto maior o percentual maior a importância) que tem o desemprego para explicar cada modalidade de inadimplência. Veja os resultados abaixo (a coluna mais à direita é o sinal do coeficiente do Desemprego na regressão):

Quadro com resultados das regressões

Quadro com resultados das regressões

Para padrões de análise estatística, a única variável que apresentou coeficiente de determinação razoavelmente aceitável foi o Crédito Pessoal, com quase 70%. As demais apresentaram coeficientes  de determinação estatisticamente muito baixos.

Isso significa, como disse, que há fortes indícios de que deve haver outros fatores com influência muito maior na taxa de inadimplência do que o desemprego simplesmente.

Para Cartão de Crédito e Cheque Especial, o coeficiente da variável Desemprego foi negativo! Isso significa que, estatisticamente falando, um aumento da taxa de desemprego leva a uma queda na inadimplência destas modalidades de financiamento!.. É estranho, pois vai contra o senso comum. Mas é justamente nesse “senso comum” onde muitas vezes mora o perigo.

É óbvio que um post como este não esgota o assunto. Para se obter resultados mais acurados e confiáveis, estas relações demandam uma análise mais profunda e o uso de métodos estatísticos mais avançados, que vão além do propósito deste blog.

Mas já fica bem claro que, antes de sair divulgando uma suposta relação entre desemprego e inadimplência, a imprensa não fez sequer este estudo superficial que acabo de compartilhar com o leitor.

Espero que tenha sido didático o suficiente para os leigos no assunto. Quaisquer dúvidas, o espaço de comentários está aberto logo abaixo para perguntas, críticas e sugestões…

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Para profissionais e estudantes do assunto: o coeficiente da variável Desemprego foi estatisticamente significativo com 95% de confiança em todas as regressões, exceto as que se referem a atrasos superiores a 90 dias.


O que é bom também deve ser destacado

dezembro 27, 2008

Não é o propósito deste blog, mas o que é útil e carrega princípios de bem deve ser destacado. Aliás (minha opinião) é o que deve principalmente ser destacado… E é o que eu tento trazer aqui, já que considerável parte da mídia não oferece.

Não conheço um blog que destaca boas reportagens na mídia, então abro um pequeno espaço aqui para isso: “Economista descarta risco de recessão no Brasil em 2009”

Destaco esta reportagem pois emite uma opinião sobre o que tem ocorrido e o que deve acontecer, mas uma opinião sensata, livre de artifícios, exageros ou distorções. Ao contrário de disseminar alarmismo e pessimismo, mostra o que é real.

Não ilude e aliena o leitor – ao contrário de algumas autoridades políticas em nosso país – da realidade difícil que viveremos no próximo ano. Contudo, mostra às pessoas também que não temos motivo algum para reclamar de nossa situação, frente à de tantos outros países.

Ao invés de prostrar o interlocutor numa posição pessimista e de passividade, esperando que um apocalipse econômico-financeiro invada sua vida, deixa claro que compomos uma economia forte e que depende de nós aproveitarmos as oportunidades que se abrem para nosso país com esta crise.


Uma pessoa prevenida vale por duas! (parte I)

dezembro 27, 2008

Gostaria de alertar o leitor para algo que já estão prevendo que irá acontecer e alegando estar supostamente relacionado com a crise:

O desemprego vai subir no início de 2009!!

Seu emprego está com os dias contados! Duvida!? Pode esperar, pois já estão prevendo!! Veja a reportagem da Agência Brasil que foi noticiada em vários jornais da imprensa brasileira.

Sim, de novo esta história do desemprego (e da inadimplência também)!…

“Essa expectativa (de aumento da inadimplência) pode se configurar, com maior intensidade, no primeiro trimestre de 2009, por conta da crise financeira internacional , que no Brasil tem gerado efeitos como redução do crédito e previsão de desaquecimento da atividade econômica, com aumento da taxa de desemprego.[grifo nosso]

“Outro fator observado pelo economista (Roberto Piscitelli) é que o aumento da taxa de desemprego, que deve ser observado com maior intensidade no primeiro trimestre de 2009, também é um fator que pode levar a maior inadimplência.” [grifo nosso]

E você que está na classe A ou B e, pelo título da reportagem, se considera excluído, leia o segundo parágrafo:

“Os efeitos da crise não poupam sequer outras classes.” (além da C, D e E)

Ok. Vamos por partes! (literalmente: eu dividi a análise em três!)

Antes de falar sobre inadimplência (parte II), vejamos como se comporta a taxa de desemprego desde março de 2002:

Taxa de Desemprego (%) - destaque para os meses de Janeiro, Fevereiro e Março

Taxa de Desemprego (%) - destaque para os meses de janeiro, fevereiro e março

Os meses de janeiro, fevereiro e março estão destacados em azul

Olha que padrão interessante: ela sobe todo início de ano! Sem exceção, desde o início da série de Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE! Será que eu estou tão alienado assim que não fiquei sabendo de nenhuma crise nestes anos que se passaram!?

Ei! Alguém aí pode me contar quais foram essas crises, porque até o sabe-google-tudo deve ter perdido!..

Bem… Porquê o desemprego cai todo Dezembro? Sazonalidade, de novo! (para maiores explicações, veja o primeiro post deste blog)

Ah sim, existe maior demanda pela proximidade das festas de fim de ano. Por isso as indústrias, o comércio e empresas em geral contratam profissionais temporários.

Dicionário Aurélio:

Temporário:
[Do lat. temporariu.]
Adjetivo.
1.Que dura algum tempo; transitório, temporâneo.
2.Provisório, interino, temporâneo

Se é temporário, tem que acabar uma hora!! E essa hora é quando as empresas não mais precisam destes trabalhadores: no início do ano seguinte, quando a demanda volta ao normal, há menor atividade econômica e, claro, todo mundo viaja!..

Esse post foi apenas pelo bem do ditado: “Um homem prevenido vale por dois!”

Agora o leitor já sabe o que estará estampado nos jornais em fevereiro, após a divulgação dos dados de desemprego do mês de janeiro… E saberá também que isso não tem profunda relação com a crise, como alegam.

Muito em breve publicarei os próximos posts da série…

Parte II –   desemprego  x  inadimplência

Parte III –   mais alguns comentários, positivos e negativos

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Nota: Entenda o leitor que a crise já está provocando e ainda deverá provocar demissões, sim, em alguns setores da economia brasileira. Em momento algum afirmei que a crise não colabora para o aumento do desemprego. Este post tem o objetivo apenas de esclarecer que não há razão para alarmismos e que é equivocado atribuir à crise a responsabilidade por um aumento do desemprego no início de 2009.


Se me permitem a auto-propaganda…

dezembro 25, 2008

A Outra Face da Moeda está entre os 7 blogs que crescem mais rapidamente no WordPress!

Tela do Dashboard (espécie de ‘painel de controle’) hoje, 25/12/08, às 20h30:

Entre os sete blogs que mais crescem no WordPress!

Entre os sete blogs que mais crescem no WordPress!

Obrigado a todos os colaboradores e leitores neste início de trajetória! Um agradecimento especial ao meu professor Cláudio Shikida!

Espero que este trabalho colabore para o cumprimento de seus propósitos: compartilhar o conhecimento livre de artifícios, promover a reflexão e estancar a disseminação do alarmismo, da manipulação e do oportunismo!


“Indicadores macroeconômicos já sofrem impacto da crise”… Já, também!? Poxa, que coisa!

dezembro 25, 2008

E bota coisa nisso! Esta crise está rendendo viu!..  Esses dias vi muitas manchetes interessantes, mas esta me chamou a atenção particularmente! Sinceramente – falando sério mesmo – quando eu vi esta manchete já imaginei: essa aqui vai estar recheada de pérolas! Reportagem sobre variáveis macroeconômicas em meio a uma crise internacional!? Ah.. era de se imaginar!

Agora foi a vez da Folha de São Paulo: “Indicadores macroeconômicos brasileiros já sofrem com a crise.” (Acesso em 24/12/2008 às 15h, horário de Brasília)

“Apesar da tentativa do governo federal em minimizar os impactos da crise financeira internacional no país, os resultados divulgados pela equipe econômica nesta terça-feira, referentes a novembro, mostram que os efeitos negativos já atingiram a economia real. ” (Agora é cada um por si! Salve-se quem puder!)

Bem, eles foram mais generosos com meu blog do que o Estado de Minas… Cometeram equívocos em série. Irei destacar os principais a seguir.

A única coisa que falaram na reportagem que tem realmente relação com a crise é o aumento do spread bancário. Fora isso, vejam que tragédia…

Inadimplência

“De acordo com dados do Banco Central, (…) a inadimplência da pessoa física atingiu um recorde negativo que era de agosto de 2003 (…)”.

“(…) a inadimplência de pessoas físicas subiu para 7,8% em novembro deste ano, ficando apenas atrás do resultado de agosto de 2003, quando a taxa bateu 7,9%.”

Ok… Faltou uma coisa: anunciarem um subprime brasileiro!!

E jornalistas, quando forem falar de dados, façam-me um favor: expliquem que dados são e daonde saíram! Pra entender que inadimplência é essa à qual se referiam tive que ir caçando os números até bater com os deles!..

Facilito para o leitor: eles falam do percentual médio de financiamentos a Pessoas Físicas inadimplentes há 90 dias ou mais.

O último dado que temos – e que foi apresentado pela Folha – é de novembro.

Humm.. Novembro, mês 11.. tá..

90 dias = 3 meses.. ok..

11 – 3 = ……… 8!! 8 é o mês…. deixe-me ver… Agosto! isso!

Então os contratos de financiamento ao qual nos referimos entraram em atraso no máximo até Agosto.

Cá entre nós: ainda bem que eu estudo economia, senão nunca que conseguiria fazer essas contas! Imaginem jornalistas! Deviam ensinar isso nas escolas viu…

Bem… Até o mês de Agosto, o sistema financeiro internacional ainda não tinha “derretido” – tomei a liberdade de me apossar do jargão jornalístico! Será que a Folha supõe que os contratantes destes financiamentos já sabiam data e hora do ápice da crise financeira, se anteciparam a ela e pararam de pagar as contas por sei lá qual motivo!? Não encontrei explicação melhor para o raciocínio deles…

O leitor concorda que para captar uma influência de um fato ocorrido sobre o que quer que seja, seria mais prudente avaliar dados que reflitam o que ocorreu depois de consumado o fato? Ou seja, pra saber se a crise influenciou a inadimplência eu preciso analisar a inadimplência depois da crise, ora!

Então porquê não analisaram os contratos com atraso entre 15 e 90 dias!? Sim, tem lá no mesmo banco de dados do Banco Central que eles consultaram! Pois é, não sei porque usaram dados de antes da crise… Olha, é só uma suspeita, mas talvez seja porque a inadimplência, depois da crise, tenha caído (!!) – 6,54% em outubro para 6,49% em novembro! Imagina só a manchete no meio de uma crise internacional: “Inadimplência cai!” Poxa, que coisa mais sem graça…

Taxas de Juros

Antes de entrar em cheio nas próximas pegadinhas da Folha, permitam-me comentar uma frase dessa reportagem: “(…) a previsão é que o crédito cresça apenas 16% em 2009, a metade do resultado deste ano.”

APENAS 16%?? Num país cujo PIB crescerá – se muito – 3%!? No meio de uma crise FINANCEIRA internacional sem precedentes desde 1929!? É realmente uma expansão pífia do crédito… Isso no meio bancário dos EUA, que vai de vento em popa, ia ser a piada do ano! Vão rir da nossa cara!.. Tá… Bom, pelo menos tiveram a idéia iluminada de colocar mais à frente uma declaração de um analista do BC ressaltando que “crescer 16% não é trivial.”

Vamos aos juros… Veja que terror! Já estocou comida!? Olha, se fosse você… Vai saber né…

“Segundo o BC, a taxa de juros do cheque especial em novembro atingiu o maior nível desde junho de 2003, passando de 170,8% ao ano em outubro para 174,8% no mês seguinte.”

“A taxa do crédito pessoal também aumentou de 57,5% ao ano em outubro para 60,6% ao ano em novembro.”

“No geral, os juros para pessoa física subiram 3,8 pontos percentuais em novembro, alcançando 58,7% ao ano, o maior nível desde março de 2006.”

Uau!!

Vamos ver um gráfico que esse post já está ficando cansativo de texto…

Taxas de Juros (% a.a.)

Taxas de Juros (% a.a.)

Veja só, todas começaram a subir simultaneamente. É a crise!! Mas… espera um pouco. Começou a subir em janeiro de 2008… O ápice da crise não foi em setembro?

Ahá! Não são só os tomadores de empréstimos, os banqueiros também são videntes!! E mais espertos também, pois já sabiam de tudo no início do ano!!

Façam-me o favor… Não precisamos estudar economia pra saber que as taxas de juros básicas da economia (sim, a Selic) têm influência direta nas taxas de juros de varejo bancário. Isso porque as taxas do CDI seguem muito de perto a Selic, e os bancos usam o CDI para se financiarem e concederem empréstimos, principalmente de curto prazo, como o cheque especial. Estão todos de mãos dadas! Se um vai pra cima, o resto vai junto… E vice-versa.

CDI: Certificado de Depósito Interbancário – é um dos principais meios de captação de recursos usados pelos bancos

Meu professor de Finanças, Eduardo Coutinho, já dizia: “Banco não é casa de caridade.” Traduzindo: se o BC toma emprestado pagando 13,75% a.a., um banco não vai emprestar pra outro banco, pra você e nem pra mim por menos do que isso!

Veja:

Taxas Selic e CDI anualizadas

Taxas Selic e CDI anualizadas

Parece ter alguma ligação? A correlação estatística é de 99,99%. Com as duas séries em primeira diferença (ou seja, a taxa de variação de um mês em relação ao anterior), a correlação é de 98,55%

Em primeira diferença, a correlação entre a variação do cheque especial, por exemplo, e a variação na Selic é de 56%. Nada mal, levando em considereção que as taxas de juros no varejo bancário são formadas também a partir de outros fatores, tais como expectativa de inflação, risco, custos de transação, impostos, entre outros. Não estimei regressões com outras variáveis além da Selic, pois não vem ao caso – dos leitores economistas que quiserem se arriscar, eu gostaria de receber notícias… Os demais (crédito pessoal, total PF e PJ) têm correlação entre 40% e 50% com a Selic.

Taxa de variação no mês - Crédito Pessoal e Selic

Taxa de variação no mês - Crédito Pessoal e Selic

O BC não deixa isso muito claro na metodologia de coleta dos dados disponibilizados, mas se nas taxas de juros do varejo bancário estiverem embutidos os impostos diretos das operações, o aumento da alíquota do IOF – após a extinção da CPMF – explica o pico da variação em Janeiro/08 (gráfico acima), que se repete em todas as modalidades de financiamento.

A matéria ainda se arrisca sobre as contas do governo, déficit primário…. Não vou me adentrar nisso em preservação da síntese (que já abusei neste post) e porque a esta altura o leitor já deve ter descartado a hipótese de  absorver algo desta reportagem da Folha, especificamente. Então, missão cumprida…

Novamente quero deixar claro que nós sabemos que a Folha Online publicou a matéria em questão tal como nos apresenta em seu site, por um pequeno descuido, desatenção ou má orientação. Equívocos acontecem…

E repito: os jornalistas devem atentar para não reincidir nestes tipos de erros, tão danosos para a sociedade, pois disseminam pensamentos inflados pelos excessos da imaginação, de índole pessimista e alarmista. E nós, leitores, devemos atentar ainda mais para o que lemos, antes de sair comentando com os demais, tornando-nos veículos destes pensamentos.


“Crise já afeta criação de vagas”… Já!?!?

dezembro 21, 2008
Crise já afeta a criação de vagas

Estado de Minas: Crise já afeta a criação de vagas

Título: “Crise já afeta a criação de vagas”

Jornal: Estado de Minas

Edição: Sábado, 20 de Dezembro de 2008, página 14, “Economia/TurBulência Global”

Jornalista: Paula Takahashi

A reportagem afirma que a crise financeira internacional já gerou um aumento no desemprego no mês de Novembro/08. Se ampara na hipótese de que em Novembro, “historicamente, os números do mercado de trabalho são bons”. Vejamos…

Em primeiro lugar, vamos aos dados originais, mas apresentando-os livres de uma análise tendenciosa: cobrindo um período de 7 anos. Porquê encontramos tendenciosidade ao analisar o histórico do desemprego em 12 meses (como fez o Estado de Minas)? Porque esta é uma variável econômica naturalmente influenciada por sazonalidade.

Em poucas palavras, podemos explicar a sazonalidade fazendo uma analogia com a agricultura. Muitas culturas agrícolas são sazonais, ou seja, há uma grande colheita numa ou duas épocas do ano, e pequena produção nos demais períodos. Analisar apenas 12 meses e dizer, por exemplo, que a agricultura brasileira perdeu eficiência apenas por termos observado uma queda de um mês para o outro é equivocado!

É preciso observar os meses de Outubro e Novembro de 2008 em comparação com os mesmos meses dos anos anteriores, para evitarmos que nossa análise seja contaminada pela sazonalidade ou por um evento isolado.

Vejamos ano a ano o que ocorreu com a taxa de desemprego na passagem do mês de Outubro para Novembro (Fonte: Banco de Dados SIDRA do IBGE – http://www.sidra.ibge.gov.br):

Veja no gráfico de nossa autoria:

Taxa de Desemprego para Outubro e Novembro (de 2002 a 2008)

Taxa de Desemprego para Outubro e Novembro (de 2002 a 2008)

Qual foi a crise – não anunciada – em 2004, quando a taxa de desemprego subiu de 10,5% em Outubro para 10,6% em Novembro!?

Em 2005 o Brasil estava à beira de uma crise devido ao fato da taxa de desemprego não ter caído, ficando estável a 9,6% em ambos os meses de Outubro e Novembro!?

Não havia crise em 2004, e muito menos em 2005. Ninguém arrancou os cabelos morrendo de medo de ser demitido no ano seguinte! Nenhuma empresa zerou seus investimentos e seus planos de contratação naqueles anos!

Não estamos comparando os anos de 2004, 2005 ou 2006 com o que virá em 2009. É claro que o Brasil sofrerá com esta crise e haverá uma significativa redução na taxa de crescimento do nosso PIB no ano de 2009, mas daí dizer que a taxa de desemprego subiu 0,1 ponto percentual por causa da crise e sair estampando manchetes “salve-se quem puder” nos jornais é pura impulsividade, irreflexão e irresponsabilidade.

Com este tipo de comportamento nós podemos acabar realmente gerando uma recessão mais profunda no Brasil, país que tem hoje uma das economias mais promissoras do mundo em meio a toda esta crise!

Temos certeza de que o Estado de Minas, periódico de grande respeito e tradição em MG, publicou a matéria acima com esta redação por um pequeno descuido, desatenção ou má orientação. Equívocos acontecem…

Mas os jornalistas devem se atentar para não repetir este tipo de erro, tão danoso para a sociedade, pois dissemina pensamentos pessimistas e de alarmismo inflados pelos excessos da imaginação. E nós, leitores, devemos nos atentar ainda mais para o que lemos, antes de sair comentando com os demais, nos tornardo veículos destes pensamentos.