Costumamos observar, com relativa frequência, confusões entre os conceitos microeconômicos de demanda, oferta, quantidades demandadas/ofertadas e equilíbrio de mercado.
Quando observamos os mercados na prática, no mundo real, estamos olhando apenas para os equilíbrios entre demanda e oferta destes mercados, o que nos retorna as quantidades vendidas/consumidas dos bens – que são iguais no equilíbrio – e o preço de equilíbrio do mercado.
Só é possível conhecer – ou melhor, estimar – as curvas de demanda e oferta com instrumentos econométricos (estatística aplicada à economia).
O movimento de queda na quantidade transacionada pode ser explicado tanto por fatores da demanda quanto da oferta. É incorreto supor um movimento na demanda apenas com a informação de queda na quantidade comercializada num dado mercado.
Veja o erro nesta reportagem da Folha: “Demanda por crédito cai entre consumidores e empresas, aponta Serasa”
“A crise financeira internacional fez cair a demanda por crédito tanto entre os consumidores como entre as empresas (…)”
“Entre as pessoas físicas, o novo indicador aponta queda de 10,5% entre os brasileiros que procuraram crédito (…)”
“(…) a demanda por crédito entre as pessoas jurídicas aponta que 10,8% menos empresas procuraram crédito (…)”
Por acaso o movimento não poderia ter sido causado por mudanças em variáveis que copõem a curva de oferta de crédito!? Veja o gráfico abaixo:

O leitor pode se perguntar: mas que diferença isso faz? Eu digo: toda! Uma queda na demanda por crédito indica um arrefecimento da demanda como um todo na economia. Indica que os indivíduos, por algum motivo, estão menos dispostos a contraír dívidas e consumir. Por outro lado, uma queda na oferta de crédito indica um problema localizado no mercado financeiro, apenas.
A queda na demanda é um sinal muito mais negativo para as perspectivas da economia a longo prazo. É o que os EUA estão vivendo hoje, mas que ainda não observamos com tanta clareza no Brasil.
Veja que não rejeito a hipótese de queda na demanda por crédito. Apenas esclareço que o debate vai muito além da conclusão apressada tomada pela Folha sobre a pesquisa da Serasa.