‘Popululismo’

janeiro 30, 2009

Fábio Giambiagi deve estar se contorcendo: “Lupi anuncia aumento do salário mínimo de R$ 415 para R$ 465″. O aumento real é de 6,15%. Medida populista, que compromete o futuro das gerações mais jovens, não combate a pobreza e sequer tem alguma preocupação com contrapartida em ganho de produtividade…

Para quem deseja entender a crítica, recomendo muito a leitura do livro “Brasil: Raíses do Atraso” do economista Fábio Giambiagi. Veja no final desta reportagem uma entrevista com ele.


Análise: Spread e Selic

janeiro 30, 2009

Continuando os posts anteriores sobre a relação entre spread e Selic, apresento agora números e algumas análises para embasar melhor nossa discussão a respeito do assunto. Este post é interessante, especialmente, para a imprensa que divulga o spread alto como arumento para queda da Selic.

Esta análise será, inclusive, uma prévia bem sintética do que deverei começar a estudar no novo sub-grupo do Nepom, sobre Mercado Financeiro e Spread.

Vamos lá…

Usei três séries na minha análise, todas do Banco Central: 1) Selic acumulada no mês anualizada; 2) Spread médio mensal (pré-fixado, pós-fixado e flutuante) das operações de crédito com recursos livres referenciais para taxa de juros – Total geral; 3) Spread médio mensal (pré-fixado, pós-fixado e flutuante) das operações de crédito com recursos livres referenciais para taxa de juros – Total pessoa jurídica. Não há série equivalente para pessoa física. Usei o período entre Junho/2000 e Dezembro/2008. A série da Selic começa em 1986, mas as de spread começam no ano 2000.

Vejamos, primeiro, a relação entre a Selic e o spread total médio:

selic_spread_total

À primeira vista, parece ter alguma relação mesmo, não é? Vamos ver estatisticamente: a correlação entre as duas séries é de 81%. Nada mal!

Passemos agora à relação entre o Spread médio para Pessoa Jurídica e a Selic:

selic_spread_pj

Aparentemente, também parece guardar alguma relação. No entanto, a correlação estatística entre as duas séries é de apenas 19,2%.

Bom, o que isso nos diz? Que a redução da Selic causa uma queda no spread total e, um pouco menos, no spread à PJ? Cuidado… Como falei no post anterior, estabelecer relações causais é muito perigoso! Vamos ver como as séries se comportam em primeira diferença, antes de qualquer conclusão apressada.

selic_spread_total_1a_diferenca

Clique no gráfico para ampliar

Já não aparenta ter tanta relação assim… E de fato não tem: correlação das séries em primeira diferença é de 23,6%.

O spread para pessoa jurídica tem correlação ainda menor, em primeira diferença, com a Selic: somente 2,1%.

Porquê analisar as séries em primeira diferença? Porque, em nível, podemos cair na armadilha da tendência. Ambas as séries podem estar seguindo uma mesma tendência, mas não necessariamente estarem relacionadas entre si, e muito menos existir relação causal entre elas. Meu colega, Pedro Henrique Sant’anna (do Homo Econometricum), já havia alertado para isso na apresentação de setembro/2008 do Nepom (veja slides 70 a 74).

Alguns poderão argumentar que, a partir de setembro de 2008, a série de spread variou muito por conta de um choque externo (a crise financeira internacional). Ok… Retirei os meses de setembro a dezembro de 2008 da amostra e o quadro não mudou muito:

Em primeira diferença:

Spread total e Selic: correlação de 23,5% (contra 23,6%, com a amostra até dez.)

Spread PJ e Selic: correlação de 0,4% (contra 2,1% com a amostra até dez.)

E então? Está aberto o debate, agora com um embasamento numérico e estatístico, ainda que mínimo.

No novo grupo do Nepom que irei coordenar, sobre Mercado Financeiro e Spread, estou pensando em usar testes de causalidade de Granger e Mecanismo de Correção de Erros, não só para analisar a relação da Selic, mas também de outros fatores, na formação do spread bancário.

Os leitores economistas têm sugestões de leituras e de métodos de avaliação de causalidade para me ajudar?


Os perigos das relações causais

janeiro 30, 2009

Estabelecer relações causais é sempre uma tarefa cheia de armadilhas…

A matéria é do Estado de Minas, “Queda da taxa de juros chega ao consumidor de BH”:

“(…) redução dos juros cobrados ao mês, de 7,49% para 5%” - num financiamento típico de crédito ao consumidor em aquisição de bem durável (fogão)

“Segundo especialistas, o corte dos juros básicos (Selic) na semana passada em 1 ponto percentual, o maior em cinco anos, para 12,75% ao ano, provocou a queda imediata das taxas praticadas pelos bancos e chegou ao consumidor mais rapidamente desta vez.”

Eu mostrei no post “Confusão entre Spread e Selic”, que a queda de 1pp. na Selic equivale a uma redução de 0,075 pp. nas taxas mensais de captação dos bancos via CDI.

A queda (de 2,49 pp) específica no financiamento do fogão que o EM citou, com certeza foi muito mais influenciada por outros fatores além da Selic. E é difícil dizer a que se deve a queda, pois é muito pontual, não é observada na mesma proporção em todo o mercado de crédito. Pelo menos não vi nenhuma pesquisa mais ampla apontando isso…


História econômica viva

janeiro 30, 2009

Não sei se todos que se interessam por História Econômica Geral – como eu, que comecei a me interessar há poucos meses – estão acompanhando os recentes acontecimentos em economia e política mundial que se desdobram por trás do auê crisento financeiro…

A China está saindo das suas fronteiras e aumentando sua influência sobre diversos países do leste asiático. Recentemente, a moeda chinesa começou a ser adotada no comércio externo com alguns países, ao invés da tradicional troca em dólares. A Índia também dá alguns sinais de sair da toca, com conglomerados empresariais monstruosos. O Brasil está anunciando planos de investimentos – e sendo bem recebido – em vários países da América Latina e da África – com participação direta de diversos conglomerados privados nacionais. (veja uma das dezenas de matérias que têm saído na imprensa sobre o assunto)

Pra quem estudou ao menos um mínimo – como eu – das fases que o capitalismo global já passou, consegue projetar o que esses movimentos significam.

Isso é História Econômica Geral viva. Estamos vivendo parte de algo que será estudado nas próximas décadas nas cadeiras de história econômica em todo o mundo. E agora somos protagonistas.

A imprensa está fazendo um trabalho até legal, acompanhando as comitivas brasileiras, mas acho que poderiam dar mais ênfase para essas matérias. A meu ver, são muito, mas muito mais relevantes para o Brasil do que, como eu disse, o auê crisento financeiro…

E aí?.. Vamos continuar no pescoço da galinha ou levantaremos a mira?


Mais descontração… (rs)

janeiro 30, 2009

“O mundo todo está sofrendo, 50 milhões de empregos irão se perder em todo mundo, segundo as cifras mais conservadoras. Mas não tanto na Venezuela, porque faz pouco tempo que a Venezuela se desenganchou do capitalismo internacional dirigido pelos Estados Unidos.”

Aspirante a Ditador da Venezuela, Hugo Chaves, digo Chávez, ‘esquecendo’ que os SUV´s norte-americanos estão atolados em petróleo venezuelano…

PS.: não sabia que emprego perdia a si mesmo; dá um GPS pra eles uai, resolvido; tá, pode ter sido o tradutor…


Pra descontrair!…

janeiro 29, 2009

“Devido à quebra de bancos, queda nas bolsas, cortes no orçamento, crise nos combustíveis e pelo racionamento mundial de energia, informamos que a famosa luz no fim do túnel será desligada.”

hehehe

A frase está num blog quase homônimo: “Outro lado da moeda”

Eu tinha lido outra semelhante em setembro/08, mas não lembro a fonte:

“Wall Street agora está descobrindo que aquela luz no fim do túnel é, na verdade, uma locomotiva vindo em direção a eles!”


O que dizem os bancos a respeito do spread

janeiro 29, 2009

A opinião dos bancos a respeito do spread bancário deve ser ouvida? Ninguém sensato diria que não.

Pra quem gosta muito de julgar os banqueiros, devo recordar que eles, em geral, nas suas atividades profissionais, estão preocupados com o que todos nós nos preocupamos: produzir mais do que se consome. Isso, pra mim, é saudável e necessário para nossa sobrevivência, apesar da herança medieval brasileira insistir em taxar como algo imoral e vergonhoso (falei sobre preconceitos e dogmas em um post anterior, olha aí um exemplo; ignoramos vários outros).

Obs.: cuidado com suas conclusões; veja que não sou favorável ao pensamento de ganância, que gera desequilíbrios e consome a mente humana.

A imprensa se preocupa em escrever, com os mesmos dados e informações, as melhores matérias e vender mais jornais e revistas. O estudante de economia está preocupado em estudar, no mesmo período de tempo, os melhores livros e nas melhores faculdades, em busca de melhores salários no futuro.

Ninguém é diferente. Se alguém prefere produzir menos do que consome deveria ser alvo do Greenpeace, pois é um maluco desperdiçando os recursos do planeta. Alguém tem um argumento contrário plausível?

Dito isto, veja o que o economista-chefe da Febraban tem a dizer sobre o assunto:

“Febraban: spread sobe com piora da economia e do risco”

“a queda dos spreads não acontece de uma hora para a outra”

“O contexto é diferente. Antes, você tinha crescimento da demanda e economia em expansão. Isso permitia ter spreads mais baixos porque o crédito estava crescendo. Hoje, temos muito mais incerteza, indefinição e, por isso, o risco é maior. Nesse cenário, um movimento para baixo é mais lento”

“As taxas de juros tendem a continuar caindo porque a inflação está mais baixa e a economia está crescendo menos, o que reduz a demanda e favorece a queda do juro”, disse. Ele, no entanto, não disse que isso será seguido em igual proporção pela diminuição dos spreads.”

Nos próximos dias publicarei dados – e respectivas análises – sobre Selic e spread, que ficaram faltando no post “Confusão entre spread e selic”.


Nas palavras de Armínio Fraga…

janeiro 28, 2009

O que comentei um pouco em posts anteriores, trago nas palavras de Armínio Fraga – “O juro cairá mais rápido se o governo for paciente” (agradeço a citação da matéria pelo GreenFish):

Estadão: E o Brasil, está entrando em um ciclo econômico normal?

A. Fraga: Estamos vivendo um ciclo mais normal. Cabe ao governo – e ao BC – tentar suavizar, mas é impossível evitar totalmente.

Estadão: Até onde deve ir essa suavização?

A. Fraga: Infelizmente, na área fiscal, apesar do superávit primário, nós abusamos, nos últimos 10 ou 15 anos , do direito de crescer o gasto. Embora nossa relação dívida/PIB líquida seja de 35%, a bruta está em 55%. Não é tão baixa quando se leva em conta o nosso juro. Deve-se tomar cuidado antes de fazer alguma coisa. Não cabe exagerar, inclusive no crédito. Se o governo tiver um pouquinho de paciência, ao longo do tempo, o BC pode surpreender quanto a cortes do juro. É um jogo de paciência que seria muito bom para nós. Lá na frente vem uma recompensa muito grande.

Estadão: O que é ser prudente?

A. Fraga: Não gastar muito, começar a fazer algumas reformas que precisam ser feitas e ter um pouquinho de atenção com questões de longo prazo mais estruturais.


Manual rápido de Sistema de Metas para Inflação

janeiro 28, 2009

Veja a entrevista de Henrique Meirelles, concedida ao Estadão: “Bancos públicos serão mais decisivos”

Pra quem criticava a atuação do Banco Central sem muito conhecimento do que fala, aqui está um rápido e bom manual de consulta para leigos (principalmente para a imprensa):

HM: “Quando assumimos (2003), a inflação anualizada estava acima de 20% e o País beirava a insolvência. As reservas aproximavam-se do mínimo acordado com o FMI e vendíamos dólares diariamente para controlar os mercados. O risco Brasil estava em 1.400 pontos e o dólar, a R$ 3,40. Não existe consenso sobre as razões que levaram o País àquela crise, mas ninguém duvidava da sua gravidade. O desafio foi enfrentar todos os problemas ao mesmo tempo em que construíamos as bases para a estabilização e para um crescimento sustentado.”

HM: “Quando assumimos (2003), a taxa Selic estava em 25% ao ano e os juros de mercado eram substancialmente mais elevadas. A taxa de juro de 360 dias na BM&F era 14% reais (acima da inflação esperada). Hoje a Selic está em 12,75% e a taxa real é a mais baixa já registrada. É natural, no entanto, que muitos fiquem impacientes e queiram uma queda rápida, particularmente quando o benefício da estabilidade é uma experiência nova no Brasil. Os resultados mostram, no entanto, que o ritmo foi adequado.”

HM: “Quando a crise atingiu o Brasil, estávamos crescendo a 6,8% ao ano, a demanda doméstica a 9,3% e a inflação acima de 6%. O crescimento médio do PIB de 2004 a 2008 foi de 5%, enquanto a média dos últimos 20 anos foi de pouco mais de 2%. A inflação variou dentro do intervalo de tolerância da meta, nunca abaixo do piso. As avaliações que tenho visto no mundo são de que esses indicadores da economia brasileira não refletem uma política monetária excessivamente conservadora (essa parte é ótima pra imprensa que adora fazer comparação, sem sentido nenhum, entre os juros brasileiros e de outros países). As taxas de juros reais estão caindo gradualmente no Brasil e a tendência é que continuem caindo no longo prazo, desde que sejam mantidas políticas responsáveis que assegurem a queda dos prêmios de risco. A crise externa nada tem a ver com a política monetária brasileira. Aliás, ironicamente, a atual crise mundial é resultado de um longo período de juros excessivamente baixos nos Estados Unidos, política que na época era tão elogiada por aqui (por falar nisso, cadê eles agora?). A crise tem de ser enfrentada com o diagnóstico correto e medidas precisas que ataquem as causas reais dos problemas sem criar desequilíbrios que no passado fizeram com que substituíssemos crises externas por crises internas.”

HM: “Em um regime de metas de inflação é fundamental que a comunicação do BC seja eficaz. Para isso, o BC precisa ter credibilidade, o que significa ser realista e dizer a verdade, mesmo que não seja a mensagem mais agradável naquele momento. Se os agentes respeitam o BC, apostarão no cumprimento da meta e, como resultado, os custos sociais diminuirão consideravelmente. Com esses pressupostos, um banco central tem considerável grau de influência na formação de expectativas.”

Nada a acrescentar…

Ressaltando a última frase: formação, e não desorientação de expectativas!


Confusão entre Spread e Selic

janeiro 27, 2009

“A Selic não só reúne condições técnicas para cair mais fundamente (sic) como precisa cair para reduzir o spread bancário e normalizar o mercado de crédito doméstico.”

A reportagem é do Valor Econômico: “Análise: Ata pode frear ritmo de corte da Selic” (se não for assinante, leia aqui)

Vamos lá. Spread bancário é a diferença entre a taxa de captação de recursos paga pelas instituições financeiras e a taxa cobrada nos financiamentos concedidos pelas mesmas insituições.

No Brasil, o CDI é uma das principais taxas que medem o custo de captação dos bancos. Já demonstrei aqui que ele tem correlação de 99% com a Selic e expliquei o porquê disso.

Um exemplo prático e simplório para entendermos:

A – B = C

A = Taxa média cobrada pelos bancos

B = Selic ou CDI

C = Spread bancário

Se eu deduzir 1 da Selic (B), a taxa dos bancos (A) também deverá cair na mesma proporção. Então:

(A -1) – (B -1) = C  ;  A – 1 – B + 1 = C  ;  A – B = C

O Spread não muda. A não ser que (A) caia numa proporção maior do que (B). Isso só pode acontecer caso outros fatores – como a expectativa de inadimplência ou de inflação – também mudem, além da Selic.

Portanto: Selic mais baixa não reduz spread bancário!

A reportagem ainda usa o argumento de que a queda nos juros diminui a inadimplência, pois o custo dos empréstimos fica mais baixo. Mas já demonstrei antes (“Queda na Selic não muda crediário”) que a queda na Selic provoca uma diminuição relativamente desprezível dos juros na ponta do mercado de crédito. Relativamente, pois o spread já era tão alto e subiu tanto nos últimos meses que reduziu o peso da Selic.

A expectativa de queda na taxa de juros futura realmente pode estimular os empréstimos de longo prazo, como a matéria alega. Mas não podemos subestimar o poder que as incertezas têm neste momento sobre a disposição dos bancos em concederem empréstimos longos. Quanto maior o prazo do financiamento, maior é o risco

Dar segurança ao mercado surtirá muito mais efeito do que simplesmente reduzir a Selic de forma imprudente a patamares baixíssimos.


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