Continuando os posts anteriores sobre a relação entre spread e Selic, apresento agora números e algumas análises para embasar melhor nossa discussão a respeito do assunto. Este post é interessante, especialmente, para a imprensa que divulga o spread alto como arumento para queda da Selic.
Esta análise será, inclusive, uma prévia bem sintética do que deverei começar a estudar no novo sub-grupo do Nepom, sobre Mercado Financeiro e Spread.
Vamos lá…
Usei três séries na minha análise, todas do Banco Central: 1) Selic acumulada no mês anualizada; 2) Spread médio mensal (pré-fixado, pós-fixado e flutuante) das operações de crédito com recursos livres referenciais para taxa de juros – Total geral; 3) Spread médio mensal (pré-fixado, pós-fixado e flutuante) das operações de crédito com recursos livres referenciais para taxa de juros – Total pessoa jurídica. Não há série equivalente para pessoa física. Usei o período entre Junho/2000 e Dezembro/2008. A série da Selic começa em 1986, mas as de spread começam no ano 2000.
Vejamos, primeiro, a relação entre a Selic e o spread total médio:

À primeira vista, parece ter alguma relação mesmo, não é? Vamos ver estatisticamente: a correlação entre as duas séries é de 81%. Nada mal!
Passemos agora à relação entre o Spread médio para Pessoa Jurídica e a Selic:

Aparentemente, também parece guardar alguma relação. No entanto, a correlação estatística entre as duas séries é de apenas 19,2%.
Bom, o que isso nos diz? Que a redução da Selic causa uma queda no spread total e, um pouco menos, no spread à PJ? Cuidado… Como falei no post anterior, estabelecer relações causais é muito perigoso! Vamos ver como as séries se comportam em primeira diferença, antes de qualquer conclusão apressada.

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Já não aparenta ter tanta relação assim… E de fato não tem: correlação das séries em primeira diferença é de 23,6%.
O spread para pessoa jurídica tem correlação ainda menor, em primeira diferença, com a Selic: somente 2,1%.
Porquê analisar as séries em primeira diferença? Porque, em nível, podemos cair na armadilha da tendência. Ambas as séries podem estar seguindo uma mesma tendência, mas não necessariamente estarem relacionadas entre si, e muito menos existir relação causal entre elas. Meu colega, Pedro Henrique Sant’anna (do Homo Econometricum), já havia alertado para isso na apresentação de setembro/2008 do Nepom (veja slides 70 a 74).
Alguns poderão argumentar que, a partir de setembro de 2008, a série de spread variou muito por conta de um choque externo (a crise financeira internacional). Ok… Retirei os meses de setembro a dezembro de 2008 da amostra e o quadro não mudou muito:
Em primeira diferença:
Spread total e Selic: correlação de 23,5% (contra 23,6%, com a amostra até dez.)
Spread PJ e Selic: correlação de 0,4% (contra 2,1% com a amostra até dez.)
E então? Está aberto o debate, agora com um embasamento numérico e estatístico, ainda que mínimo.
No novo grupo do Nepom que irei coordenar, sobre Mercado Financeiro e Spread, estou pensando em usar testes de causalidade de Granger e Mecanismo de Correção de Erros, não só para analisar a relação da Selic, mas também de outros fatores, na formação do spread bancário.
Os leitores economistas têm sugestões de leituras e de métodos de avaliação de causalidade para me ajudar?